A hanseníase é mesmo uma doença difícil de diagnosticar?

Até a hanseníase de fato ser diagnosticada, a pessoa acometida pode passar por diversas suspeitas de outras doenças com sinais e sintomas semelhantes à enfermidade. Lacunas na formação profissional, necessidade de acolhimento e atendimento humanizado são fatores que intensificam esse processo.

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A hanseníase pode impactar e transformar severamente a vida de pessoas acometidas, sobretudo quando o diagnóstico é realizado de forma tardia. Antes de ser identificada, a enfermidade ainda pode ser confundida e tratada como outras doenças, o que pode levar ao avanço do adoecimento e elevar a chances da pessoa desenvolver incapacidades físicas. Pitiríase Versicolor (pano branco), dermatofitose (impinge), fibromialgia e artrite reumatoide são apenas algumas das muitas doenças passíveis de serem confundidas com a hanseníase.

Tiago Paradela, rondoniense estudante de psicologia e conselheiro da NHR Brasil, recebeu o diagnóstico de reumatismo antes de ser identificado com hanseníase. Somente após o aconselhamento de um vizinho, Tiago buscou auxílio na Policlínica Oswaldo Cruz, unidade de referência em Porto Velho, e foi atendido de prontidão.

Ele relata que passou por um período de aceitação de seu diagnóstico, agora correto, pois sentia medo dos procedimentos cirúrgicos que teria que realizar devido ao estágio avançado que a hanseníase se encontrava. Contudo, ele sentia uma tranquilidade de, a partir de então, estar passando pelos procedimentos efetivos que iriam lhe trazer a cura.

Você vai à unidade de saúde na expectativa de encontrar uma resolução para o seu problema. Aí você recebe um diagnóstico de uma doença que não tem nada a ver com a sua, apesar de ter semelhanças com alguns sinais e sintomas. Então a crítica que eu faço é porque o diagnóstico inicial é sempre voltado para o que é mais óbvio.”

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Em suas atividades como coordenador do Grupo de Autocuidado do Hospital Santa Marcelina, Tiago ainda se depara com o relato de diversas pessoas acometidas que passaram por situações semelhantes às dele. Ou seja: o problema ainda persiste e impacta diretamente na detecção precoce dos casos, sendo mais um obstáculo para a prevenção de sequelas e incapacidades devido ao avanço da enfermidade.

Por que essa situação é recorrente?

O equívoco no diagnóstico ainda persiste, uma vez que há condições clínicas que induzem lesões cutâneas semelhantes às características da hanseníase, podendo gerar confusão para os profissionais da saúde. Mas para além disso, a médica dermatologista e hansenóloga Juliana Ramos indica que o cerne do problema está na formação desses profissionais.

“O que eu vejo em minha prática diária é que a grande maioria dos profissionais, sejam eles médicos, enfermeiros, fisioterapeutas ou psicólogos, saem com uma formação deficiente quando o assunto é hanseníase”, lamenta a médica.

A hansenóloga destaca que o diagnóstico da enfermidade é eminentemente clínico. Portanto, para ser realizado a fim de alcançar um resultado mais preciso, é necessário que o profissional de saúde esteja apto a executar “um bom exame físico neuro-dermatológico”, procedimento em que se busca sinais da hanseníase através de um exame físico minucioso. Juliana revela, porém, que esse é somente um dos desafios a serem superados quando o assunto é hanseníase ou atendimento de qualidade voltado ao enfrentamento da doença.

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Quando o profissional faz o exame físico e desconfia que pode ser hanseníase, geralmente ele se dá por satisfeito por apenas suspeitar. Em seguida, o colega faz o encaminhamento para o Centro de Referência ou para quem ele acha que tem propriedade para poder diagnosticar e não toma essa responsabilidade para si”, comenta a médica.

Esse processo acaba sendo exaustivo para o paciente, que precisa realizar uma extensa peregrinação por diversos médicos até finalmente ser diagnosticado com hanseníase. Essa rotina cansativa abala principalmente a segurança da pessoa acometida no sistema de saúde, o que pode impactar em sua saúde mental e contribuir para o aumento do estigma relacionado à doença.

E quando os sinais não são tão evidentes assim?

A hanseníase pode se apresentar de forma mais sutil e sem manchas na pele, tendo seu desenvolvimento apenas a nível de comprometimento dos nervos. Quando isso acontece, os sinais e sintomas envolvem principalmente dormência nas extremidades, sensação de choques, formigamento, câimbras, perda de força ou dores nos nervos. Quando esses casos ocorrem, pode se tratar de um tipo de hanseníase chamada "neural pura".

Segundo a Sociedade Brasileira de Dermatologia, esse tipo de hanseníase pode acometer entre 3% a 10% da população diagnosticada com a enfermidade. Devido à falta de sintomas tão evidentes como as manchas, pessoas acometidas com esse tipo de hanseníase encontram ainda mais desafios para serem diagnosticadas com a doença em tempo oportuno.

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Pollyane Medeiros, jornalista e coordenadora do Morhan de Jaboatão dos Guararapes (PE), por sorte conseguiu ser diagnosticada com hanseníase neural pura logo nos primeiros meses de suspeita. Contudo, ela lamenta que a maioria dos casos não conta com uma assistência tão rápida quanto a que recebeu.

Ela conta que um dos exames essenciais para o seu diagnóstico, a eletroneuromiografia, é muito limitado no SUS em seu estado. Foi justamente esse exame que conseguiu identificar o espessamento do nervo de sua mão esquerda.

“Eu fui identificada com hanseníase e fiz o tratamento de maneira muito rápida. Fui uma exceção entre a maioria dos casos, já que têm pacientes esperando de 2 a 5 anos para fazer o exame de eletroneuromiografia. Um exame como esse pode custar até R$1.000. Então como ficam as pessoas que não tem recursos?”, aponta Pollyane.

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Como classifica a coordenadora do Morhan, é necessário que os profissionais de saúde estejam preparados e sensibilizados para investigar outras formas de hanseníase. Mesmo já tendo atuado na área da saúde como auxiliar de dentista, Pollyane não acreditava que tinha sido acometida pela hanseníase, pois não associava seus sintomas de dormência e dores nos dedos da mão esquerda como sinais da doença.

Somente após ter passado por 10 médicos diferentes e as conclusões de todos os profissionais se alinharem que Pollyane finalmente se conformou com seu diagnóstico. Como ativista do Morhan, hoje ela procura alertar a população geral e os profissionais de saúde para considerarem a possibilidade do acometimento pela hanseníase neural pura em casos suspeitos da doença, mesmo quando os exames iniciais possam indicar o contrário.

Então, como solucionar essa questão?

Para evitar a perpetuação do contexto exposto, a hansenóloga Juliana Ramos indica como estratégias possíveis o fortalecimento da temática da hanseníase nas grades curriculares dos cursos na área da saúde e a educação continuada aos profissionais de saúde de forma permanente.

A médica recomenda o matriciamento em hanseníase como uma ferramenta adicional para estimular a capacitação de profissionais no diagnóstico da doença. Tal abordagem promove a construção colaborativa de propostas de intervenção pedagógico-terapêutica por duas ou mais equipes de saúde, visando a promoção da saúde.

“A presença de um médico especialista em hanseníase tende a fortalecer o atendimento a nível de Atenção Primária à Saúde, permitindo que profissionais mais experientes e com maior conhecimento na área estejam ali do lado, fornecendo amparo, tirando dúvidas e prestando um papel de educação continuada”, reforça Juliana.

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