Hanseníase

Conheça mais sobre a doença

O Brasil é o segundo país do mundo em número absoluto de pessoas acometidas pela hanseníase, conforme dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). Em 2017, foram 26,8 mil novos casos registrados no Brasil. A Índia aparece em primeiro lugar, com 126,1 mil novos casos. O terceiro país em números absolutos é a Indonésia, com 15,9 mil novos casos em 2017. Neste mesmo ano, os novos casos detectados no Brasil contribuíram em 92,3% com os diagnósticos da doença nas Américas, aponta a OMS.

Merece destaque o número de pessoas avaliadas com grau 2 de incapacidade física (GIF 2) – indicando incapacidades e deformidades mais severas nos olhos, mãos e pés, dentre outros. Entre 2012 e 2016, houve uma média de 2 mil pessoas diagnosticadas com incapacidades visíveis decorrentes da hanseníase, correspondendo à taxa média de 10,53 casos para cada 1 milhão de habitantes no Brasil. Em 2017, esta taxa foi de 9,3 casos para cada 1 milhão. Este dado sinaliza pessoas sendo diagnosticadas tardiamente, já passado o tempo de prevenir estas incapacidades.

Globalmente, a estratégia de enfrentamento à doença foca na diminuição da carga da hanseníase, que pode ser medida pela redução do número de novos casos com GIF 2. Antes deste direcionamento, o alvo foi a eliminação da doença como problema de saúde pública. Para estar fora deste parâmetro, o território deve ter taxa de prevalência inferior a 1 caso por 10 mil habitantes. Esta taxa no Brasil foi igual a 1,10 em 2016. Isto mostra que a situação segue preocupante, apesar de uma diminuição progressiva no número de casos nos últimos 15 anos. 

Dos novos casos em 2017, 1,7 mil foram diagnosticados em crianças e adolescentes com idade inferior a 15 anos. Casos confirmados entre crianças indica que há circuitos ativos de transmissão em áreas mais endêmicas. Assim, é necessário identificar pessoas próximas a estas crianças que sejam acometidas pela hanseníase e estejam ainda sem acesso ao diagnóstico e tratamento. Uma das metas da Estratégia Global para a Hanseníase, pactuada entre todos os países endêmicos signatários, é que se chegue a zero no número de crianças diagnosticadas com deformidades visíveis em 2020.

A hanseníase

É uma doença infecciosa crônica causada pelo Mycobacterium leprae (ou bacilo de Hansen), micobactéria transmitida pelas vias aéreas no contato prolongado com a pessoa doente que não está em tratamento. Ela atinge a pele e os nervos periféricos, podendo se manifestar em caroços ou manchas com alteração de sensibilidade. Outra manifestação é a perda da sensibilidade ou força, principalmente nas mãos e nos pés.

As primeiras notificações no Brasil ocorreram em 1600, nas cidades-porto do Rio de Janeiro, Salvador e Belém. Acredita-se que a doença tenha chegado com os primeiros colonizadores portugueses, tendo a comercialização dos escravos trazidos da África como fator importante para a disseminação.

Por afetar troncos nervosos, a hanseníase pode levar a incapacidades físicas que podem ser permanentes. Quando a doença não é tratada ou quando é tratada de forma tardia, os pacientes podem apresentar deformidades, como o encurtamento dos dedos ou mãos em garra. 

A doença ainda é acompanhada de forte estigma social, por ter sido interpretada no passado como castigo divino. Esta rejeição pela sociedade ou por si próprio pode trazer à pessoa acometida repercussões psicológicas e dificuldades no convívio familiar, comunitário ou em outros ambientes sociais. Daí a importância de informações claras sobre a forma de contágio e a cura da doença com o uso da combinação de antibióticos ou poliquimioterapia (PQT).

Sintomas

Os sintomas podem demorar vários anos para aparecer após a infecção pelo bacilo de Hansen. Dormência, formigamento e dor neural são os sintomas neurológicos iniciais da infecção. Mas também pode se apresentar com anestesia (perda da sensibilidade) e paralisação do músculo, gerando amiotrofia (perda de tecido muscular) ou perda de força muscular.

O paciente pode apresentar manchas claras, vermelhas ou marrons em qualquer parte do corpo, além de caroços vermelhos ou acastanhados. Os locais mais comuns são rosto, orelhas, costas, braços, pernas e nádegas. Pode haver também a perda dos pelos nas manchas e até a perda de cílios e sobrancelhas.

As alterações da sensibilidade na pele têm grande importância no diagnóstico: o paciente pode não sentir o quente e/ou o frio, não reagir à dor ou não sentir o toque na área afetada. Isto leva a pessoa a se queimar ou se ferir sem perceber, levando à falta de cuidado e dificultando a prevenção de novas feridas.

Tratamento

A classificação operacional dos casos utilizada para fins de tratamento faz a diferença entre a hanseníase paucibacilar – com até cinco lesões de pele – e a multibacilar – com seis ou mais lesões de pele. As pessoas classificadas com hanseníase paucibacilar têm poucos bacilos. Portanto, exames complementares, como baciloscopia e biópsia, podem não evidenciar a presença destes.

A hanseníase tem cura. O tratamento é feito gratuitamente no Sistema Único de Saúde (SUS) em unidades básicas de saúde e em referências. É realizado com a PQT, associação de medicamentos antimicrobianos recomendada pela OMS, podendo ser administrada por seis meses ou um ano, segundo a classificação operacional.

A pessoa deixa de transmitir a doença no início do tratamento, podendo conviver normalmente com familiares, amigos e colegas de trabalho. Estes contatos sociais devem ser examinados para evidenciar sinais e sintomas o mais cedo possível. O diagnóstico e tratamento precoces podem prevenir o desenvolvimento de incapacidades.

Transmissão

Acredita-se que as gotas expelidas no momento da tosse, da fala ou do espirro de uma pessoa com hanseníase e que está sem tratamento podem carregar o bacilo que transmite a doença. Ele penetra pelas vias respiratórias no corpo e se instala principalmente dentro das células dos nervos periféricos e da pele. Ele pode ser transmitido para muitas pessoas, mas menos de 10% das pessoas infectadas chegam a desenvolver a doença.

As chances de transmissão são maiores para quem convive por mais tempo com quem tem hanseníase não tratada. A transmissão é facilitada por ambiente fechado, com pouca ventilação e pouca luz solar. Após a infecção, os sintomas levam, em média, de dois a cinco anos para se manifestar no corpo.

Toda pessoa recém-diagnosticada deve levar os seus contatos intradomiciliares e sociais para serem examinados, pois estes apresentam maior risco de ter a doença. A busca de casos dentre os contatos é a principal estratégia utilizada atualmente para quebrar a cadeia de transmissão da doença. Os contatos intradomiciliares são pessoas que residem ou residiram com a pessoa diagnosticada nos últimos cinco anos.

Prevenção de incapacidades

O diagnóstico em tempo oportuno ainda é a melhor forma de prevenir incapacidades e deficiências. É importante buscar orientações em unidades de saúde durante o tratamento e após a alta sobre as práticas de autocuidado – técnicas de proteção e exercícios feitos com regularidade. Estas orientações podem evitar o desenvolvimento de incapacidades físicas ou o agravamento de incapacidades já desenvolvidas.

Recomenda-se sempre:

- Buscar os serviços de saúde e tratamento em caso de reações hansênicas (dor em choque nos nervos, inflamação das lesões de pele, febre, inchaço, íngua).

- Buscar apoio e grupos para enfrentar as dificuldades do convívio social, além de aplicar as medidas de autocuidado. Nos estados de Pernambuco e Rondônia, por exemplo, a NHR Brasil apoia grupos de autocuidado e grupos de ajuda mútua, que atuam na perspectiva da prevenção de incapacidades, empoderamento e inclusão social.

Controle da hanseníase

No Brasil, as diretrizes para a vigilância e o controle da doença incluem ações em diversos níveis de atenção à saúde. (Incluir link: http://www.saude.pr.gov.br/arquivos/File/Manual_de_Diretrizes_Eliminacao_Hanseniase.pdf)

- Ações de educação em saúde: estratégias para levar informações claras sobre a doença para equipes de saúde, casos suspeitos e casos confirmados, contatos sociais, lideranças comunitárias e público em geral.

- Investigação epidemiológica para diagnóstico oportuno: habilidades para conduzir o atendimento de demanda espontânea, fazer a busca ativa de novos casos e vigilância de contatos sociais

- Tratamento de casos diagnosticados: garantir tratamento adequado nos serviços de saúde pública, além de promover orientação e recursos anticoncepcionais para mulheres em tratamento ou em episódios de reação hansênica

- Prevenção e tratamento de incapacidades: medidas adotadas em unidades de saúde, como atividades de educação, exercícios preventivos e de autocuidado, adaptações de calçados e instrumentos de trabalho, além do apoio nos aspectos emocionais e de integração social.

- Vigilância epidemiológica: coleta, processamento, análise e interpretação de dados para basear análises sobre as intervenções e nortear o planejamento de novas estratégias.

Atualmente, são realizadas pesquisas para a administração de medicamentos para prevenir a manifestação da doença em pessoas sob risco de infecção, ou seja, moradores de áreas altamente endêmicas.

Com a estratégia da profilaxia pós-exposição (PEP), a organização Netherlands Leprosy Relief (NLR) iniciou a abordagem com dose única de rifampicina (LPEP) e implementa, no Brasil, na Índia e na Indonésia, o ensaio clínico com o regime reforçado de medicamentos – PEP++, com uso de rifampicina e claritromicina.

Além disso, a redução do estigma é um dos eixos prioritários de atuação da NHR Brasil e se constitui em um dos temas transversais às demais iniciativas voltadas para o diagnóstico precoce, quebra da cadeia de transmissão da doença, prevenção de incapacidades e o desenvolvimento inclusivo de pessoas acometidas.

Mitos e verdades

A doença é contagiosa?
Verdade. O contágio se dá de pessoa para pessoa pelo espirro ou nariz. Mas apenas é transmitida por pessoas que estão infectadas e sem tratamento. A bactéria, ou bacilo, é facilmente transmitida. No entanto, cerca de 90% das pessoas contagiadas não adoecem.

Se eu tocar uma pessoa com hanseníase, eu pego a doença?

Mito. A transmissão acontece por gotículas que a pessoa infectada solta na respiração, no espirro, na saliva ou na tosse. A bactéria não se transmite no contato direto com a pele. Também não é necessário separar objetos, como copos, pratos e talheres. A doença não é transmitida por apertos de mão, abraço, beijo ou o compartilhamento de cadeiras e bancos.

A hanseníase tem cura?
Verdade. Com tratamento adequado utilizando a medicação fornecida na rede pública, o paciente pode ser curado entre 6 e 18 meses.

A doença atinge apenas regiões pobres?

Mito. Ela é transmitida para qualquer pessoa que conviva de forma próxima e por muito tempo com uma pessoa sem tratamento. Porém, há fatores que aumentam as chances de contágio e desenvolvimento da doença: superpopulação, baixas condições de higiene e desnutrição. Assim, a prevenção também se dá pela melhoria das condições de vida da população.

Após o tratamento, o paciente pode voltar a ter hanseníase?

Verdade. Novos sinais e sintomas após alta do tratamento com PQT são chamados de casos de recidiva e podem aparecer aproximadamente a partir de cinco anos depois da cura. Eles são muito raros em pessoas que completaram o esquema da PQT. Nestes casos, a pessoa refaz o tratamento com PQT adequada.

A pessoa atingida pela hanseníase deve ser afastada do convívio com outras pessoas?

Mito. O tratamento mata a bactéria, reduzindo a transmissão do bacilo. A pessoa pode continuar a conviver na família e na sociedade sem precisar ser isolada.

Mais informações:

Agência Fiocruz de Notícias

(Link: https://agencia.fiocruz.br/)

Secretaria de Vigilância em Saúde - Ministério da Saúde

(Link: http://portalms.saude.gov.br/svs)

Coordenação Geral de Hanseníase e Doenças em Eliminação - Ministério da Saúde

(Link: http://portalms.saude.gov.br/saude-de-a-z/hanseniase)

Organização Mundial da Saúde

(Link:https://www.who.int/eportuguese/countries/bra/pt/)

Estratégia Global para Hanseníase – OMS

(http://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/208824/9789290225201-pt.pdf;jsessionid=DE16A8463124648BA762A65DFB5EBA60?sequence=17)

Guia de apoio para grupos de Autocuidado em Hanseníase

(Link: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_apoio_grupos_autocuidado_hanseniase.pdf)