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Moradores do distrito de Jaibaras se unem para discutir hanseníase e deficiências

Como alcançar a garantia dos direitos das pessoas com deficiência e acometidas pela hanseníase em uma comunidade? Lideranças, representantes do poder público e moradores buscam ações que sirvam de respostas a esta pergunta no distrito de Jaibaras, situado a 24 quilômetros da cidade de Sobral, no Ceará.

Um dos passos em discussão é o surgimento de uma associação de pessoas com deficiência, para que a sociedade civil tenha um espaço legítimo para reivindicar suas demandas.

Pela primeira vez, o Fórum Permanente da Pessoa com Deficiência se reuniu no distrito de Jaibaras, com encontro realizado no dia 31 de maio na Igreja da Paz. O fórum se reúne mensalmente e envolve a sociedade civil, servidores públicos e movimentos sociais.

Em Jaibaras, o encontro ajudou os participantes do distrito a compreenderem os passos para a formação da nova associação para pessoas com deficiência. “Esse é um desejo identificado entre os participantes do projeto. Estamos aqui para auxiliar o processo e pensar no desafio de promover sustentabilidade à nova organização”, explicou Héllen Xavier, coordenadora do projeto na NHR Brasil.

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Em Jaibaras, o Fórum contou com a presença de Cristina Nunes, presidente do Conselho Municipal dos Direitos das Pessoas com Deficiência em Sobral. Participaram também moradores da comunidade, incluindo pessoas com deficiências visuais e motoras.

“A ideia é que encontremos soluções da comunidade para a comunidade. Sempre trabalhei apenas com a hanseníase, achava que sabia alguma coisa sobre deficiência. Agora abraçamos este desafio de lutar pelos direitos de uma forma mais ampliada”, compartilhou Jocilanio Neves, coordenador do Morhan em Sobral.

Novas ideias e ações

A iniciativa do Desenvolvimento Inclusivo é uma parceria da NHR Brasil com o Movimento das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan) em Sobral, com o objetivo de promover a inclusão e garantia de direitos a partir das necessidades do território e das pessoas envolvidas.

Igrejas, escolas, população, mídias locais e líderes da comunidade são alcançados pelo trabalho de sensibilização do projeto, iniciado em setembro de 2018. Um dos resultados já alcançados no distrito de Jaibaras foi a criação do Conselho Local de Saúde, reunindo demandas da população para dialogar e fiscalizar as ações do público na área.

Identificando necessidades

Para compreender as condições e demandas do território, foram entrevistadas 108 pessoas com algum tipo de deficiência e 62 pessoas acometidas pela hanseníase. Os moradores também foram envolvidos em oficinas e elaboração de plano de ação para o projeto, que deve ser implantado durante cinco anos em Jaibaras.

“Esse trabalho permite pensar em ideias juntos para que possamos reivindicar com as autoridades, buscar mais qualidade de vida e maneiras para que todos possam conviver, estar bem e participar da sociedade”, conta Jocilânio Neves.

Outras ideias devem ser postas em prática durante o ano. Uma delas é a criação de uma ouvidoria: linhas telefônicas para orientar os moradores que tenham dúvidas sobre procedimentos de acesso à saúde pública.

O projeto também produzirá um boletim informativo a ser distribuído na comunidade, para que as pessoas possam acompanhar as diferentes etapas da iniciativa. Também será realizada a celebração do Arraiá da Inclusão, aproveitando o período de festas juninas para divulgar as ideias do projeto no território.

“Queria mais gente escutando”

Já são mais de 18 anos de convivência com a hanseníase para a dona de casa Ana Célia da Silva. Moradora da localidade do Setor, ela relembra que o preconceito e o desconhecimento das pessoas sobre a doença foram as principais barreiras nos primeiros anos.

Ao longo do tempo, ela viu melhorias no acesso ao atendimento. Se antes não tinha como se deslocar até a sede do município, foi beneficiada, nos últimos três anos, pela disponibilização de carro de Jaibaras até Sobral para o atendimento no Centro de Atenção Psicossocial (Caps).

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Mesmo com outros sete casos de hanseníase na família, não foi fácil para Ana Célia lidar com a doença. Ela trabalhava em uma escola como merendeira. E conta que, após tanto precisar se ausentar com atestados médicos, foi demitida. Precisou de ajuda psicológica para enfrentar a depressão.

Ana Célia era uma das moradoras na reunião realizada no dia 30 de maio pelo projeto. Na ocasião, os habitantes da localidade se encontraram na capela São Vicente e puderam aprender mais sobre a hanseníase, estigma e inclusão.

“Tem muita gente que não entende o que é a doença. Pra gente que teve, esse momento é muito importante. Eu queria mais gente escutando essas informações. De pouco em pouco, as pessoas podem aprender e receber melhor quem tem a doença”, acredita.