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O projeto Vigilância de Populações Específicas foi discutido no mês de fevereiro como uma das estratégias da NHR Brasil para contribuir com a quebra de cadeia da transmissão da hanseníase

A busca ativa de casos de hanseníase em homens acima dos 60 anos e crianças até 15 anos é uma das ações da NHR Brasil em 2019. Com a proposta de alcançar municípios distantes de regiões metropolitanas, a iniciativa será realizada nas cidades de Eunápolis (Bahia) e Floriano (Piauí). O desenho das atividades foi discutido em oficina com especialistas realizada nos dias 23 e 24 de fevereiro, incluindo estratégias que envolvem profissionais de saúde, parceiros locais e veículos de comunicação.

O projeto foi iniciado em 2018 com foco apenas em homens acima de 60 anos para contribuir com a quebra de cadeia da transmissão da hanseníase no Brasil. Presente no encontro, o dermatologista Maurício Nobre, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (RN), contextualizou a análise dos casos registrados no País apontando maior proporção de casos multibacilares nos homens em relação às mulheres e com altos percentuais na população idosa. Dentre possíveis causas a serem melhor investigadas e documentadas, ele aponta a resistência cultural do homem em comparecer aos serviços de saúde e a tendência ao isolamento entre os idosos.

Em 2018, as atividades com foco no homem idoso foram executadas em Cacoal (Rondônia) e Eunápolis em parceria com as secretarias municipais de saúde. No primeiro município, foram diagnosticados 12 novos casos em homens acima de 60 anos. Este número havia sido de 7 casos no ano anterior. No segundo município, foram 15 novos casos diagnosticados em 2018, número também maior em relação ao ano anterior (9 casos).

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Por trazer mais atenção para a hanseníase nos municípios, houve também um aumento na detecção geral. Em Eunápolis, o destaque foi para o incremento de 75% no número de diagnósticos considerando todas as faixas etárias, um dado que reflete a melhoria da rede de saúde na capacidade de identificar casos já existentes na região. O primeiro ano de ações incluiu treinamentos para profissionais de saúde dos municípios, parceria com comércios, escolas e empresas locais para falar sobre a doença e envolvimento de rádios e TVs locais como multiplicadores de informação.

Ampliando o olhar

Para 2019, a proposta é qualificar o direcionamento para o idoso e estender a vigilância específica para menores de 15 anos. Além da busca ativa por casos em idosos nas comunidades, as estratégias acrescentam um trabalho próximo às escolas. Conforme a dermatologista e pesquisadora Maria Leide de Oliveira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é recomendável integrar as ações dos projetos às campanhas de vacinação para estes grupos nas unidades de saúde, como as campanhas de poliomelite e influenza.

Os dois grupos estão interligados, visto que os idosos podem ser a fonte de infecção da hanseníase para as crianças da casa. Por isto, outro eixo debatido na oficina foi a qualidade da avaliação dos contatos destes casos. Estabelecendo uma prioridade na vigilância, as crianças com hanseníase podem levar à descoberta de casos nos idosos na família, sendo o fluxo inverso também possível.

Também integrando as discussões na oficina, Carmelita Ribeiro Filha, coordenadora-geral de Hanseníase e Doenças em Eliminação do Ministério da Saúde, enfatizou a atenção para que a suspeição dos casos em escolas ou visitas domiciliares leve em conta os sinais neurológicos da doença. Assim, a busca pelos casos novos não foca apenas nas manchas de pele, abrindo o olhar para formigamentos, dormências e alterações neurais principalmente entre os idosos.